Linha-fina: Série de reportagens da Ponte discute segurança como tema central das eleições. Com apelo político cada vez maior, gastos com a área subiram a R$ 163 bilhões em 2025, enquanto segurança é tratada como sinônimo de confronto e militarismo
Por Paulo Batistella

Comece com um exercício de imaginação em que o governo do seu estado passou por uma enorme crise sucessória: o governador renunciou para evitar alguns problemas; o vice dele preferiu pular para um outro cargo público, com menos dor de cabeça e maior estabilidade; e o presidente da Assembleia Legislativa local, que deveria virar o novo chefe do estado, acabou preso.
Do dia para a noite, bateram, então, à porta da sua casa com um anúncio: parabéns, você é a única pessoa que sobrou para assumir o governo! A sua primeira missão agora é definir o orçamento público, ditar para onde vai o dinheiro do estado — que, vale dizer, é limitado, apesar dos tantos impostos recolhidos da população.
Saúde e educação parecem, então, unanimidades para receber a maior parte dos investimentos, certo? Habitação e transporte talvez venham na sequência, para todo mundo ter onde morar e como se locomover. Trabalho, agricultura, indústria, urbanismo e cultura surgem como outras áreas prioritárias. E a segurança pública também é fundamental para você?
Agora tente imaginar um estado que gasta mais com segurança do que com qualquer outra dessas áreas. Se fosse ficção, pareceria um exagero, mas esse estado existe: trata-se do Rio de Janeiro.
Só em 2026, a segurança pública fluminense deve se apropriar de R$ 19,3 bilhões dos cofres públicos. A saúde e a educação, por exemplo, que costumam ser as maiores pastas de estados e de municípios, terão apenas R$ 13,5 bilhões e R$ 10,9 bilhões, respectivamente.
Parece, então, contraditório perceber que esse mesmo estado, onde a prioridade no uso do dinheiro é a segurança, tem, ainda assim, o maior número de policiais mortos no país, um dos piores índices de letalidade policial, a mais alarmante taxa de roubos, uma das menores taxas de apreensão de armas de fogo, um dos maiores números de feminicídios e um dos piores índices de esclarecimento de assassinatos.
Como um estado que gasta tanto com segurança aparece, há décadas, em manchetes de jornais por causa de comunidades violadas por operações policiais violentas e por facções criminosas?

Gastos com segurança quase dobram em cinco anos em alguns estados
Para especialistas ouvidos pela Ponte, não há, contudo, contradição nessa realidade. E, para entender o porquê disso, é preciso começar olhando justamente para o orçamento público.
É o que a Ponte faz com essa reportagem, a primeira de uma série especial sobre a segurança pública, a Ponte nas Eleições, devido ao tema ser colocado em pesquisas de opinião como prioridade para as eleições gerais de 2026. Na mesma medida em que gera apelo político e votos, a área também tem recebido cada vez mais dinheiro dos governantes, sempre dispostos a garantir um novo mandato.
Essa é uma realidade não só do Rio, onde, segundo indicou uma pesquisa recente da Quaest, 66% dos eleitores apontaram a segurança pública como a pior área do atual governo. Provisoriamente, o estado é chefiado pelo desembargador Ricardo Couto, que presidia o Tribunal de Justiça local (TJRJ) e assumiu o governo após uma crise sucessória não tão distante daquela de exercícios de imaginação.
Em 2025, conforme mostrou a edição mais recente do Anuário Brasileiro da Segurança Pública, o país gastou R$ 163,12 bilhões com segurança pública. Tratou-se do maior valor destinado à área pelo menos desde 2016, período correspondente à série histórica monitorada pelo anuário, uma publicação do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP).
A maior parte do dinheiro veio dos estados, que comandam as polícias militares, civis, técnico-científicas e penais: foram R$ 131,25 bilhões provenientes dos cofres estaduais, o equivalente a 80,5% do total. A União, responsável pela Polícia Federal (PF) e pela Polícia Rodoviária Federal (PRF), veio na sequência, com R$ 18,09 bi. Os municípios, cada vez mais equipados com guardas municipais, aportaram R$ 13,77 bi na área.
Considerando os últimos cinco anos, a região Norte foi a que teve maior aumento de gastos, com uma alta de 38,4% desde 2021, seguida pela região Nordeste (+32,5%). No Piauí, por exemplo, o volume de recursos quase dobrou nesse período (+93,2%), algo parecido com o que ocorreu no Acre (+93,2%).
O Acre foi justamente o estado que teve o maior gasto per capita com segurança pública em 2025, com um saldo de R$ 1.486,52 para cada habitante. O estado foi seguido por outros três da região Norte: Amapá (R$ 1.448,58), Roraima (R$ 1.384,40) e Rondônia (R$ 1.321,41).
Maior orçamento é dedicado especialmente para policiamento ostensivo
Uma análise detalhada do orçamento dos estados evidencia ainda que a atenção cada vez maior dada à segurança pública tem significado, fundamentalmente, maiores gastos com a Polícia Militar.
Um estudo produzido pela plataforma Justa, uma entidade civil que monitora o orçamento do sistema de Justiça, identificou que, em 2024, os militares ficaram com quase metade dos R$ 109 bilhões gastos por um grupo de 24 estados com a segurança pública e com o sistema prisional — a pesquisa só não obteve dados de Roraima, Maranhão e Piauí, que, de todo modo, somam apenas 4% do orçamento total dos estados.
Para as polícias militares, cuja principal função é o policiamento ostensivo, realizado por meio de patrulhamento nas ruas, foram repassados R$ 52,2 bilhões. Já as polícias civis e técnico-científicas, focadas em trabalhos investigativos e na produção de provas técnicas, ficaram com R$ 20,2 bi e R$ 2,5 bi, respectivamente.
Ou seja, já ao traçar o orçamento, cada estado decidiu não apenas gastar mais com segurança pública, mas também financiar um modelo específico do que entendem ser segurança.
“É um investimento muito intensivo para a ostensividade. Por esse próprio planejamento, existe a priorização de um modelo de segurança pública de confronto, com essas operações policiais em comunidades, invasões com grande poderio bélico, com a compra de armas, de caveirão, de helicópteros blindados”, diz o advogado Felippe Angeli, coordenador de advocacy do Justa.
Para ele, o policiamento ostensivo é importante, até pela percepção de segurança causada pelo patrulhamento, mas tem evidentes limitações. “A ostensividade tem, por natureza, um resultado policial menor, porque, na maior parte das vezes, ela só consegue coibir crimes em flagrante, que, por natureza, são menos complexos, porque estão acontecendo nas ruas. Então, esse modelo coíbe o roubo no semáforo, o porte da pequena quantidade de droga”, explica.
Felippe diz entender, portanto, que, já no orçamento, o Estado decide encher o sistema prisional com autores de pequenos delitos em vez de investir, por exemplo, na prisão de grandes traficantes de armas, autores de homicídios e operadores financeiros do crime organizado — porque, para alcançar esses criminosos, uma atuação ostensiva não basta, é preciso bancar um trabalho policial de investigação.
Esse mesmo estudo do Justa, chamado Funil de Investimentos da Segurança Pública e Sistema Prisional, também identificou que, para cada R$ 4.877 gastos com as polícias, o poder público dedicou apenas R$ 1 para políticas aos egressos, que permitam a reinserção social de quem já foi preso.
“Eu costumo dizer que a gente basicamente está financiando as facções criminosas com dinheiro público. Porque pegamos esses pequenos criminosos, dos crimes nas ruas, em geral jovens com baixíssimas perspectivas, negros e pobres, e colocamos eles nessas masmorras lotadas e em condições insalubres, ambientes que são muito propícios para as facções [surgirem e cooptarem novos integrantes].”

Dinheiro para as PMs atende operações, mas não os policiais
Os maiores gastos com as polícias, particularmente a militar, têm sido acompanhados ainda de uma outra contradição: as queixas constantes de desvalorização por parte dos próprios policiais, que alegam falta de estrutura em suas carreiras, desvalorização salarial e déficit funcional nas corporações.
A segunda edição do Raio-X das Forças de Segurança Pública do Brasil, uma pesquisa publicada agora em agosto de 2026 pelo FBSP, indicou que o efetivo disponível de policiais militares, civis e penais corresponde a apenas 64% do previsto pelos próprios estados — isso equivale a 336 mil profissionais a menos do que o número de vagas estabelecidas por lei.
No caso da Polícia Federal, houve, inclusive, perda de efetivo nos últimos anos — de 2023 ao ano passado, ele caiu 2,8%. Isso ainda ocorreu em um momento, conforme destaca o FBSP, em que as competências federais na segurança pública têm sido mais exigidas, no combate a crimes transnacionais, ao crime organizado, à corrupção e a crimes cibernéticos.
O Raio-X publicado pelo FBSP também indicou que os gastos assumidos pelos estados com segurança pública estão longe de serem proporcionais aos salários dedicados aos policiais.
São Paulo, por exemplo, com o maior orçamento do país na área, ocupa apenas a 19ª e a 21ª colocação nas listas dos estados que melhor remuneram, na média, policiais militares e civis, respectivamente.
O Rio de Janeiro, em segundo lugar nos gastos totais com segurança, é só o sétimo que melhor remunera PMs e o 14º na lista de remuneração dos policiais civis. Na sequência, Minas Gerais, com o terceiro orçamento mais robusto na segurança pública, tem a Polícia Civil mais mal paga de todo o país e é apenas o oitavo estado que melhor remunera os militares.
E se o dinheiro que aumenta a cada ano não chega para os trabalhadores da segurança pública, para onde ele vai, então? “Esses orçamentos não são usados para comprar câmeras, para fazer perícia, para uma política de segurança baseada em inteligência. Não é para nada disso. É para aumentar o número de operações, para continuar produzindo uma política de guerra”, diz o historiador Fransérgio Goulart, que é coordenador-executivo da Iniciativa Direito à Memória e Justiça Racial (IDMJR).
Se segurança é sinônimo de guerra, é seguro desinvestir
A entidade civil da qual Fransérgio faz parte passou a monitorar nos últimos anos o orçamento da segurança do Rio, onde está sediada, e de outros estados, o que, a princípio, parecia ser algo incoerente com o maior propósito da organização: enfrentar a violência de Estado.
A medida surgiu, no entanto, justamente como uma tentativa de conter a violência policial, que acomete principalmente a população negra, uma vez que nem mesmo decisões judiciais e protocolos internacionais de uso da força dos quais o Brasil é signatário foram capazes disso — no fim das contas, acima da letra da lei, havia dinheiro e apelo político para sustentar uma guerra.
“Nós começamos a dialogar com um grupo de movimentos negros dos Estados Unidos, de organizações comunistas e anarquistas que se consolidou após a morte de George Floyd [que impulsionou o movimento “Vidas Negras Importam”, em 2020, em Minneapolis], e uma das pautas deles era pensar no que eles chamam de desfinanciamento das polícias. Era um dispositivo novo para tentar controlar a letalidade policial.”
O IDMJR defende hoje, então, o que parece impensável diante do senso comum afoito por mais dinheiro para a segurança: ir justamente no sentido oposto, reduzindo os investimentos em um modelo de polícia que, embora tratado como prioritário, só torna a vida mais insegura.
Uma pesquisa do Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos (Geni), da Universidade Federal Fluminense (UFF), mostrou que, de 2007 ao ano da morte de George Floyd, quase 85% das operações policiais no Rio foram pouco eficientes, ineficientes ou desastrosas, no sentido de terem mais mortos e feridos do que prisões de criminosos e apreensões de drogas, armas e itens roubados.
Ou seja, a ideia do IDMJR é retirar dinheiro de um modelo de segurança que prefere equipar policiais para confrontos, em vez de combater, por meio de investigação e inteligência, o mercado ilegal de armas e drogas.
Para isso, a entidade tem dado treinamentos a outros movimentos sociais e incidido junto a parlamentares para convencê-los a remanejar emendas orçamentárias para políticas sociais.
“Nós não estamos falando de tirar dinheiro do salário dos policiais. Estamos falando de operacionalização, de estrutura. Estamos falando de desinvestir nesse orçamento de políticas de guerra, da compra de armas letais, de operações. Estamos falando de remanejamento, de tirar dinheiro da compra de um caveirão, que vai produzir mais letalidade, para investir em alimentação escolar, por exemplo.”

Segurança baseada em confronto impõe custos também a outras áreas
Fransérgio diz que esse modelo de segurança pública tem consumido dinheiro não só da própria área, mas também de outras. Ele cita como exemplo as escolas militares, que repetem o militarismo já privilegiado na segurança, mas agora financiado pelo orçamento da educação.
Há ainda impactos orçamentários em outras áreas. O mais evidente deles está na saúde. Um estudo do Instituto Sou da Paz dimensionou o peso sobre o orçamento causado por uma segurança pública que hoje não prioriza, entre outras coisas, o controle de armas de fogo: só em 2024, o Sistema Único de Saúde (SUS) precisou gastar R$ 42,3 milhões com internações de vítimas da violência armada.
“Existe esse custo direto, de internação, mas existe também uma série de custos indiretos, de pessoas que precisam fazer fisioterapia, que perdem a sua capacidade de trabalho. É um impacto importante”, diz a advogada e socióloga Carolina Ricardo, que é diretora-executiva do Sou da Paz.
“Em locais conflagrados, em que tem muita troca de tiro, existe uma dificuldade de manter profissionais, é necessário fechar unidades de saúde, fechar também escolas, e aí precisa repor aula, lidar com o trauma dos profissionais. E tudo isso é custo, são custos sociais e econômicos”, acrescenta.
Ainda assim, também conforme identificou o Sou da Paz, atualmente apenas seis estados do país têm delegacias especializadas no enfrentamento ao tráfico de armas — Bahia, Ceará, Espírito Santo, Paraíba, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul.
“Nós defendemos a criação de uma delegacia ou ao menos de um departamento com uma equipe alocada, um sistema padronizado das armas apreendidas, investimento em perícia balística. Isso é muito importante, porque arma não é só ferramenta de crime. Ela permite rastrear uma fonte, chegar a uma quadrilha de tráfico de armas, desvendar um homicídio. É uma ferramenta de prova”, diz Carolina.
Mesmo quando o orçamento parece atender o controle de armas, isso nem sempre ocorre de maneira efetiva. No Rio, a antiga gestão de Cláudio Castro (PL) adotou um bônus de R$ 5 mil para os policiais por cada fuzil apreendido, o que geralmente ocorre em operações de baixa efetividade e de alto custo social e econômico — no Massacre do Alemão e da Penha, no ano passado, por exemplo, houve mais mortes (121), inclusive de policiais, do que fuzis apreendidos (93).
“Qualquer incentivo financeiro precisa estar atrelado a uma visão política, para não fazer as coisas a qualquer custo. É importante retirar fuzil de circulação, mas ele foi rastreado? Houve uma inteligência investigativa por trás disso? No Rio, nós sabemos, existe um grande problema de corrupção policial. Então, pagar bônus sem mecanismo de auditoria e visão estratégica é arriscado, porque aí nós podemos ver caso de fuzil plantado, de um mesmo fuzil ser apreendido cinco vezes.”
Política de segurança sem discussão sobre orçamento é sonho
Para Carolina, o bônus, no fim das contas, pareceu mais uma tentativa de se promover politicamente diante de uma população assustada com a violência armada. A especialista diz ainda que, agora nas eleições, essa deve ser uma premissa para se avaliar candidatos: desconfiar dos que prometem usar ainda mais dinheiro público de maneira populista para sustentar uma guerra.
“O candidato que promete só dar mais polícia está te enganando. Claro, o Brasil precisa de polícia, mas não necessariamente de mais polícia. Nós precisamos de uma polícia mais valorizada, mais bem preparada, com melhores condições de trabalho, que olhe para a saúde mental dos policiais. Precisamos de quem olhe para o todo da polícia: além da polícia ostensiva, precisa ter investigação criminal.”
“Eu brinco que nós só costumamos ver candidatos fazendo propaganda com o ‘policial Rambo’, aquele fardado e com um fuzil na mão. Ninguém faz propaganda com um investigador, com o escrivão que está registrando o inquérito, com o perito analisando uma amostra. Então, desconfie, porque nem sempre aquilo que é visível é o que resolve na segurança pública.”
Felippe Angeli, do Justa, concorda com essa avaliação: “Nós precisamos entender segurança para além das polícias — com as polícias, o que é importantíssimo, mas para além delas. Segurança passa por trazer cidadania, urbanismo, trabalho, uma série de questões”.
O especialista diz ainda que o orçamento de segurança precisa ser tratado de maneira integrada principalmente com o sistema prisional e estar sob o mesmo escrutínio que políticos costumam dedicar às políticas sociais.
“Quando nós falamos em segurança pública, é como se houvesse um orçamento paralelo em que não há limite de dinheiro. O Congresso vota, por exemplo, aumento de pena e condições mais rígidas, o que necessariamente vai gerar mais gastos, e nenhum desses projetos discute de onde vai sair o dinheiro. A Faria Lima não questiona, nenhum banco fala nada. Mas quando falamos em redução de alíquota de imposto de renda, aí parece que o país vai quebrar.”
Já Fransérgio Goulart, do IDMJR, diz que mandatos de fato preocupados com a segurança pública precisam construir o orçamento da área em diálogo com quem sofre a violência.
“E é diálogo de verdade, e não de faz de conta. Por que nós falamos em desinvestimento — ou, se preferir, em remanejamento, para não assustar as candidaturas? Porque, nas nossas formações, nós sempre fazemos um exercício em que o morador vira governador ou governadora por um dia. E aí distribuímos até dinheiro fictício, para construir didaticamente essa discussão sobre orçamento. Nós pedimos para a pessoa investir: a polícia aparece quase sempre zerada. Quase sempre zerada”, diz.
“Então, o que nós propomos dialoga com o que o povo preto e favelado deseja, que é uma política de promoção da vida. É remanejar os recursos que produzem morte para as políticas de promoção da vida. E a disputa do orçamento público é algo estratégico nisso. Ninguém fala de orçamento em campanha, só fala de proposição. E política sem orçamento é sonho.”



