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Carnaval: Peles brancas, máscaras, negras

O carnaval de Salvador é, sim, uma festa alegre, que mistura ritmos e danças e, em alguns casos, funciona como um suspiro para o caos. No entanto, a alegria da festa não anula o racismo da mesma.

Nos dias de folia, é comum vermos pessoas se fantasiando de “nega maluca”, utilizando perucas de cabelo black e na, pior das hipóteses, pintando-se de preto. No carnaval, é como se uma regra ecoasse, erroneamente, dizendo que “é carnaval, tudo pode”.

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Nesse sentido, quão bom seria poder ser negro só quando fosse conveniente, poder lavar o rosto e, de repente, ser uma pessoa branca cheia de privilégios, sem a ameaça constante da morte, da humilhação ou dos estereótipos diários.

No última quarta-feira (08), o assunto foi tema da roda de conversa Raça em Prosa, evento que acontece no bairro de Itapuã.

Na oportunidade, a professora e escritora Lívia Natália fez falas importantes, evidenciando que “o lugar que é pensado como lugar de negro nunca é um lugar que possa ser pensado como lugar de privilégio”.

No carnaval, o negro é colocado como um corpo a serviço de algo ou alguém. É o corpo que segura as cordas dos blocos, é o que vende a cerveja, o que sai catando as latinhas.

Porém, se um negro está num camarote, por exemplo, a estrutura do racismo só permite pensar que esta pessoa será o segurança ou a moça dos serviços gerais. Sempre para servir, nunca para ser servido.

“O racismo estrutura a gente 24h por dia”, ressalta Lívia Natália

Esses corpos negros quando não invisibilizados, são “exotizados” e, extremamente, sexualizados. Sendo assim, é o corpo que está, supostamente, de novo a serviço, desta vez, dos desejos sexuais.

“Ocupar os espaços é importante” acrescenta Lívia Natália, na perspectiva de que o negro não deve deixar de participar da folia, se assim o desejar, mas participar de maneira consciente e estratégica. Sempre preparados para responder às situações de racismo, já que este, não tira férias.

Durante o debate, diversas contra-narrativas foram pontuadas. A importância de ocupar lugares de poder e desfazer a lógica racista que indica que o negro será sempre o subserviente.

Os negros estão ocupando as universidades, as posições de poder e por que não tudo mais que lhe é direito, incluindo o carnaval?  

O “afrontamento” perpassa pela ocupação de lugares que foram historicamente pensados para acomodar os brancos.

Joyce Melo é repórter do Correio Nagô

 

 

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