Iniciativa convoca voluntários e apoiadores para ação coletiva que une sustentabilidade, ancestralidade e cuidado comunitário

Entre os dias 8 e 11 de janeiro, o Instituto Cultural Bantu (ICBANTU) promove um mutirão ecológico em Vera Cruz, na Ilha de Itaparica, para a construção da primeira rua ecológica do território. A ação reúne moradores, voluntários e parceiros em um processo coletivo que combina sustentabilidade ambiental, organização comunitária e saberes ancestrais.
A rua está sendo construída a partir do reaproveitamento de pneus de automóveis, utilizados tanto no calçamento quanto no meio-fio, reduzindo o descarte irregular de resíduos e transformando materiais altamente poluentes em infraestrutura urbana sustentável. A iniciativa se apresenta como resposta concreta às crises climática, social e urbana, a partir de soluções construídas no próprio território.

“Para se abraçar um bairro é necessária toda uma comunidade”, afirma o fundador do Instituto Cultural Bantu, Mestre Roxinho, ao convidar pessoas de diferentes regiões da Bahia, do Brasil e de outros países que estejam no estado a participarem do mutirão. “A gente vai calçar essa rua toda no pneu, mas ainda falta produzir material e fechar esse ciclo. Eu conto com você para estar aqui com a gente.”
Durante os quatro dias de mobilização, o Instituto organiza a logística de acolhimento dos voluntários, garantindo transporte da lancha até o Instituto, além de água e alimentação. Para viabilizar a ação, o ICBANTU também convoca doadores e apoiadores financeiros, que possam contribuir com os custos de alimentação, combustível e estrutura do mutirão.
“Esse é um chamado coletivo”, reforça Mestre Roxinho. “A gente precisa saber quem chega, que horas vem, se traz criança, a idade, se tem alguma restrição alimentar. Tudo isso é cuidado. Queremos preparar um rango digno, atividades para as crianças e, principalmente, construir juntos a primeira rua ecológica de Itaparica.”

Capoeira angola como ecossistema social
A construção da rua ecológica integra uma visão mais ampla do Instituto Cultural Bantu, que atua a partir da capoeira angola como tecnologia sócio-ancestral. Para o Instituto, a capoeira ultrapassa a dimensão cultural e se afirma como ecossistema social, pedagógico, espiritual e territorial, fundamentado na cosmovisão africana da circularidade, da ancestralidade e do pertencimento.
20 anos de caminhada em 2026
O mutirão acontece em um momento simbólico da trajetória do Instituto, que se prepara para celebrar 20 anos de atuação em 2026. Ao longo dessas duas décadas, o ICBANTU deixou de ser apenas um projeto para se consolidar como um ecossistema banto vivo, articulando educação, cultura, combate à fome, geração de renda, soberania alimentar, agroecologia e fortalecimento comunitário.

Esse trabalho ganhou reconhecimento nacional em 2025, quando o Instituto venceu o Prêmio Pacto Contra a Fome, com o projeto Ajeum Bantu, iniciativa que redistribui toneladas de alimentos, fortalece mulheres, terreiros e comunidades tradicionais, e atua diretamente em Vera Cruz e Salvador.
“A gente aprendeu que o rio não bebe sua própria água e a árvore não come seu próprio fruto”, conclui Mestre Roxinho. “Tudo que a gente constrói aqui é para circular, cuidar e fortalecer o coletivo.”




