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Ó Paí, Ó! comemora 25 anos de sucesso

“Rever o espetáculo é ver que, por um lado é uma tristeza o assunto ainda é ser tão atual, falar sobre a mortalidade, o assassinato de jovens negros continua sendo atual. Mas artisticamente, eu fiquei feliz por ver meus amigos plenos em cena. Ver o público dialogando e feliz com o espetáculo, aplaudindo. Fiquei com um pouco de inveja, vontade de descer lá e fazer uma cena, mas é isso, foi muito legal”, revela, em entrevista ao Portal Correio Nagô, o ator e diretor Lázaro Ramos, que imortalizou o personagem Roque.

O espetáculo “Ó Paí, Ó!”, do Bando de Teatro Olodum, comemora, este ano, 25 anos de salas lotadas, sendo um dos maiores sucessos de público do teatro baiano.

Ó Paí ÓO 14° Amostrão Vila Verão do Teatro Vila Velha, apresenta a peça, que é destaque na programação, com apresentações todos os sábados de janeiro, sempre às 20h.

A montagem do Bando de Teatro Olodum tem direção de Márcio Meirelles e mantém, até hoje, boa parte do elenco original.

“Nós somos quase 60% do elenco original que estreou a peça, poucos grupos no Brasil têm essa vivência, a gente brinca nos palcos, porque a gente se conhece”, diz o ator Jorge Washington, que interpreta Sr. Matias.

No palco, os atores retratam a realidade do Pelourinho Antigo, relatando as alegrias e sofrimentos daqueles que vivem em um pequeno cortiço, numa região estigmatizada e abandonada pelas autoridades.

”O Centro Histórico era habitado por pessoas, na sua grande maioria, pretas e pobres, excluídas de tudo e, de repente, o governo resolveu reformar tudo e botou todo mundo pra fora e deu uma indenização pífia. Nós conversamos com essas pessoas e, a partir dessa vivência, nós criamos esses personagens. O ponto forte é podermos rememorar que ali morava gente”, complementa Jorge Washington.

DO CÔMICO AO TRÁGICO

Em entrevista ao Correio Nagô, a totalidade dos atores e produtores relata a felicidade em relação ao sucesso do espetáculo. Ao mesmo tempo, lamentam que o genocídio da juventude negra e o racismo ainda permaneçam, 25 anos depois, tão atuais.

“Infelizmente a gente continua vendo crianças sendo mortas pela polícia. Tem a questão também do racismo que é muito presente. Então, mesmo que seja retratado de forma cômica, mas é o cômico apertando na ferida.” diz Inah Irenam, produtora do espetáculo.

A atriz e produtora do espetáculo Valdinéia Soriano reforça que o tema continua sendo atual. “Nosso público se interessa e se preocupa com essa discussão. Um espetáculo baiano adaptado para cinema e série de tv, também desperta a curiosidade e acaba por lotar a plateia. E por fim, o amadurecimento e propriedade dos atores/criadores do espetáculo juntos há tanto tempo que permite um entrosamento no palco. Do meu ponto de vista, são esses fatores que contribuem para termos plateia lotada”, relata.

“É uma peça atual que mostra a linguagem da favela, a linguagem de preto mesmo, que fala tudo que está acontecendo atualmente. Assisti ao filme e tive vontade de assistir a peça, é outra visão.” diz o estudante de arquivologia Stael Aguiar.

“A gente trata essas questões de forma muito leve, uma forma cômica. Mas no final do espetáculo você recebe essa pancada que é a morte dessas crianças pela polícia, que também é uma vítima. São pessoas negras matando pessoas negras. É o braço do estado, que está lá pra defender o estado e não as nossas crianças e a nossa juventude. Mas eu sou muito feliz e muito grato de tá fazendo esse espetáculo”, conta o ator Renan Mota, que interpreta Reginaldo.

Cássia Vale, que interpreta Dona Raimunda, explica que “Ó Paí, Ó! é um espetáculo que a gente tem certeza que é atual, o genocídio está aí ainda. E a gente percebe que é promissor de uma realidade”.

“É uma honra, um prazer está fazendo esse espetáculo com meu grupo há 25 anos. O que nos deixa triste é que 25 anos se passaram e a gente ainda tem que tá falando de discriminação racial, de genocídio do jovem negro, mas a gente tá resistindo, trazendo para o palco essas questões.” – Edvana Carvalho interpreta Dona Lúcia. 

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Jorge Washington, relata com exclusividade ao Correio Nagô,  que “está previsto um segundo filme, com uma possível negociação para uma nova série. A pretensão é que viajemos o Brasil com ele”.

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Atores Elane Nascimento e Jorge Washington em cena. Foto: João Meirelles

 

200px-Ó_Paí,_Ó“Vem mais projetos por aí, estamos na expectativa que o espetáculo Ó Paí, Ó! volte para TV.” diz a profissional de Educação Física Sany Costa, que é casada com o ator Sérgio Laurentino.

O espetáculo teatral foi parar no cinema e na TV. O filme conta com a direção de Monique Gardenberg inspirada no roteiro de Márcio Meirelles. O ator principal do filme é Lázaro Ramos que em entrevista ao Correio Nagô falou sobre o espetáculo.

 

 

 

25 ANOS DE HISTÓRIA, POR MÁRCIO MEIRELLES

Conversamos com o diretor da peça. Confira o relato:

Ó Paí, Ó! é consequência de um processo longo, a gente fez “Essa é nossa praia” em 91, começou a rodar de 91 a 92. Em 1992 foi quando a gente fez Ó paí, Ó!. A gente ficou trabalhando os personagens no espetáculo “Essa é nossa praia” e com performances na rua. Fazíamos improvisações, colaborações, íamos conduzindo as histórias, nós criamos a história a partir dos personagens.

Os atores sugeriram que o tema do espetáculo fosse o assassinato de crianças, e começamos a trabalhar nesse projeto. Fizemos seis ensaios, foi muito rápido a montagem de tudo isso, botei a história do assassinato das crianças, a confissão do policial, e eles, os atores, não acreditavam que a gente conseguiria. Mas a estreia foi o maior sucesso.

Houve um processo com a cidade, com o que acontecia no momento, a coisa dolorosa das crianças serem mortas, alguns policiais envolvidos nisso, uma situação que continua, e a quantidade de menino de rua nos incomodavam muito. Trabalhando no projeto AXÉ, a gente construiu essa peça a partir de uma relação com a cidade.

A gente não acreditava que era importante escrever o espetáculo, a gente só gravava as falas, e depois um jornalista informou a importância de escrever, de registrar. 25 anos e a realidade não mudou, a gente mantém a peça do jeito que ela foi feita, pois trata de temas que infelizmente a gente ainda tem que falar.

Quando estreou, fomos para o Rio. No Rio apresentamos o “Ó paí, Ó!”, e aí Caetano Veloso viu, curtiu, quis fazer o filme, porém não chegou a um acordo entre ele e a produtora. 10 anos depois, Lázaro Ramos quis fazer o filme, e aí entrou em contato com Monique Gardenberg da Dueto Produções e o filme foi feito. A TV globo quis fazer o seriado, e aí virou a série.

É uma série, filme e espetáculo com um grupo de teatro negro, participando, sugerindo, enfim. Virou uma referência nacional, e é muito representativo. Pois, muitos jovens negros viram o filme e o seriado de um grupo negro que fez um projeto vitorioso, isso é um sinal positivo, eram jovens atores negros.

Incrível quanto tempo nós estamos juntos, apesar de não estar mais na coordenação do Bando de Teatro Olodum. Consegui construir um grupo que hoje está fazendo sucesso e caminhando com as próprias pernas.

 

Joyce Melo é repórter do Portal Correio Nagô

 

 

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