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“Reflexões-Escritas de Mãe Valnizia Bianch” é o novo livro de Mãe Val de Ayrá

Valnizia de Ayrá_Divulgação

Campanha busca o financiamento coletivo para a publicação da obra que reúne de artigos de Mãe Valnizia Bianch

“A tradição como algo vivo e muito relevante para se pensar e viver o contemporâneo”. Isto é o que se pode definir sobre as experiências de escrita de mulheres negras, lideranças do candomblé, que se aventuram à produção literária. Ialorixás como Mãe Stella de Oxossi e Mãe Valnizia de Ayrá ou Makotas como Valdina Pinto, afirmam suas escritas “num movimento discursivo de caráter coletivo, representativo, horizontalizado”.

As reflexões são da doutora em Estudos Étnicos e Africanos e professora da Universidade do Estado da Bahia (Uneb), Isabelle Sanches Pereira, que se dedica às ‘escritas de si’, em especial, às obras literárias de autoria de mulheres lideranças religiosas do candomblé.

Para a pesquisadora, essas escritoras “demonstram, com a relação com a oralidade como fonte histórica, respeito pela palavra proferida, portadora de força. Elas assumem, com isso, o lugar de guardiãs da memória, protagonistas de retóricas como os mitos, onde a palavra tem importância social e estratégica de preservação e movimentação da tradição”.

A relevância destas escritas e o seu caráter coletivo e representativo, que defende Isabelle Sanches, pode ser evidenciado em uma campanha que está em curso para angariar recursos para a publicação do livro Reflexões-Escritas de Mãe Valnizia Bianch. O lançamento de mais uma obra de Mãe Val, como é conhecida a líder religiosa do Terreiro do Cobre, no Engenho Velho da Federação, em Salvador, está previsto para outubro deste ano.

A coletânea reunirá artigos, incluindo a versão traduzida para o inglês, elaborados por Mãe Valnizia Bianch, no período em que atuou como articulista do jornal A Tarde, de dezembro de 2014 a junho de 2016.

Mãe Valnizia Bianch é autora dos livros Resistência e Fé (2009), sua autobiografia, e Aprendo Ensinando (2011), onde relata a sua relação de ensino e aprendizado com os integrantes da comunidade religiosa que lidera.

A ialorixá também tem uma destacada atuação no combate ao racismo religioso por meio da organização da “Caminhada Contra a Violência, Pelo Fim da Intolerância Religiosa e Pela Paz”, promovida pelos terreiros do Engenho Velho da Federação, anualmente em novembro, e que este ano chega à 15ª edição.

Escritas de Si

Mãe Val no Terreiro do Cobre_Foto André Santana

“Eu recebia muita gente que fazia estudos sobre o Candomblé, um dia, após dar uma longa entrevista para um pesquisador francês, eu pensei: por que esse homem vem de tão longe para escrever sobre minha história?. A partir daí eu decidi que eu mesma iria escrever sobre minha história e a história do meu povo, a partir do meu olhar”, explica Mãe Val sobre seus dois livros anteriores.

Em 2014, a religiosa recebeu o convite do jornal A Tarde para dar continuidade aos artigos sobre o Candomblé no veículo, atividade iniciada pela também ialorixá Stella de Oxossi. “Para mim foi uma grande responsabilidade escrever naquele espaço que tinha Mãe Stella, por tudo que ela representa, por ela ser uma intelectual. Mas decidi por acreditar que nossa religião de matriz africana também devia estar naquele jornal, que já possuía lideranças de outras religiões ali representadas”, revela.

“Passei a escrever não sobre a essência do Candomblé, mas sobre o cotidiano negro na minha comunidade do Engenho Velho de Federação, sobre as lembranças do que aprendi com as minhas mães velhas, com meus filhos, aprendizados e ensinamentos”, conta.

A professora Isabelle Sanches aponta dois aspectos relevantes relacionados a estas produções:

“Ao refletir sobre seus movimentos de escrita penso que, por um lado, Mãe Val como liderança do candomblé, de certa forma, ignora, enfrenta interdições presentes na sociedade sobre quem pode escrever e o que se deve escrever para que seja considerado literatura, e se apropria de espaços geralmente ocupados por outras pessoas, na maioria das vezes homens brancos”.

E continua:

“Por outro, Mãe Val e outras escritoras lideranças do candomblé, ao tomar a literatura, criam processos insubmissos em relação à natureza e à função desta enquanto arte, ciência e área de conhecimento, ao desempenharem a tarefa de explicitar trajetórias de conhecimento invisibilizados, discriminados pelo preconceito racial no Brasil”, defende a pesquisadora, autora da tese de doutorado: “Onde eu me acho no direito de escrever”: reflexões sobre obras literárias de autoria de mulheres lideranças religiosas do candomblé e sua inserção na escola, defendida no Programa Multidisciplinar em Estudos Étnicos e Africanos da Universidade Federal da Bahia.

Leveza

Com uma escrita leve e narrativa precisa, a líder religiosa do Terreiro do Cobre, apresenta suas reflexões sobre temas como meio ambiente, combate à violência contra a mulher, mas também relata reminiscências das suas experiências como moradora do Engenho Velho da Federação, onde nasceu. O bairro, por manter uma alta concentração de terreiros das religiões de matrizes africanas, influenciando fortemente a preservação de uma identidade negra, é considerado um quilombo urbano.

Em seus artigos, Mãe Valnizia, iniciada para o orixá Ayrá no Terreiro Casa Branca, apresenta o diálogo do candomblé não apenas com a espiritualidade, mas em todas as relações com o cotidiano, traduzindo para a escrita uma experiência marcada fortemente pela narrativa oral.

“A palavra é muito poderosa. Ela pode criar, destruir, alegrar, entristecer, abrigar, desabrigar, aconselhar, trazer a felicidade, mas também infelicidade. A palavra também tem o poder de matar e salvar; de educar e alfabetizar”, escreveu Mãe Valnizia em artigo publicado na edição de A Tarde de 9 de novembro de 2015.

O Terreiro do Cobre foi fundado no século XIX pela africana Margarida de Xangô e ficava sediado na Barroquinha sendo posteriormente transferido para o Engenho Velho da Federação. De linhagem consanguínea, o templo teve como sua segunda ialorixá, Flaviana Bianch, conhecida como “A grande”, bisavó de Mãe Valnízia e uma das líderes religiosas citadas em capítulo do livro “A Cidade das Mulheres”, da antropóloga Ruth Landes, em visita a Salvador em 1938.

A campanha

Durante lançamento da campanha, Mãe Val explicou seu processo de escrita_Foto André Santana

O crowdfunding é uma modalidade de financiamento coletivo possibilitado por plataformas digitais. Dessa forma projetos culturais podem se tornar realidade a partir de uma rede de solidariedade. O estímulo é a oferta de brindes, que são chamados de recompensas.

O projeto para o livro Reflexões, assinado por Mãe Valnizia Bianch, está hospedado na plataforma Catarse. Doações de fora do país também são permitidas a partir do uso de cartões internacionais. Para doar, acesse o link da campanha: https://www.catarse.me/reflexoesmaeval

A campanha foi elaborada pela equipe formada pelos publicitários Mirtes Santa Rosa, Vítor Paranhos e pela jornalista Cleidiana Ramos. Ela inclui a produção de vídeos em que influenciadores culturais do Brasil dos EUA apresentam o projeto. Entre estes apoiadores estão o jurista Edvaldo Brito, a professora e ativista Eliane Costa Santos, a escritora e também ativista, Lindinalva Barbosa, o professor, jornalista, antropólogo e poeta, Marlon Marcos, o cantor e compositor Lazzo Matumbi, dentre outros.

“A ideia de realizar este financiamento coletivo vem da própria experiência do candomblé de fazer tudo de forma coletiva. É assim que são realizadas as festas, as atividades religiosas, as ações sociais, tudo de forma coletiva”, explica a jornalista e doutora em Antropologia Cleidiana Ramos.

A campanha tem duração de três meses e a meta é alcançar o valor de R$45 mil reais.  Na página da campanha são apresentadas as recompensa para cada faixa de doação, que inclui brindes, agradecimento público e o próprio livro impresso.

Texto: André Santana, publicado em 23/05/2019

Confira o vídeo da campanha

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