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Quantas produções protagonizadas por uma atriz negra você já assistiu?

05/05/2018 | às 23h40

Se as mulheres negras correspondem à 27% da população brasileira por que as atrizes negras representam apenas 4,4% do elenco principal dos filmes?

Recentemente a atriz Maria Gal fez um TEDx enegrecedor sobre o audiovisual brasileiro e o Correio Nagô teve a oportunidade de conversar com a artista para falar destas inquietações.

A atriz Maria Gal participou das novelas Carrossel (SBT), Gabriela e Joia Rara (Rede Globo)

CN: Qual o lugar de fala de Maria Gal?

MG: Meu lugar de fala é esse lugar da mulher negra artista, atriz, empreendedora. O que tem muito a ver com a minha história, até pelo fato de ter estudado teatro no Bando de Teatro Olodum, um grupo formado só por negros que já fala sobre a questão racial há muito tempo. Agora, indo para o mundo audiovisual não só como atriz, mas como empreendedora e produtora, aguça ainda mais meu ponto de vista.

 “Quantas produções protagonizadas por uma atriz negra você já assistiu?” – Maria Gal

CN: Chimamanda Adichie tem um TEDx sobre o que ela chama de “o perigo da história única”. Para você, qual o perigo da história única na produção audiovisual brasileira?

MG: O perigo é justamente deixar parecer que só existe um ponto de vista e a partir disso a gente ficar sempre em papéis limitados ou estereotipados. Uma questão importante de se perceber é que quase tudo produzido de audiovisual, a grande maioria, é feito com dinheiro público. Então o governo tem grande responsabilidade para que o dinheiro investido não fique nas mãos dos mesmos produtores, diretores  e roteiristas, justamente para que não tenhamos uma história única no audiovisual.

CN: Sobre as oportunidades para personagens estereotipados, qual a sua postura?

MG: Eu tenho entendido, até pelo fato de estar criando e produzindo. A escolha dos personagens está na mão do diretor, do roteirista, do produtor. E essas pessoas, assim como todos os seres humanos, têm pontos de vistas limitados sobre determinados aspectos. A minha postura, quando aceito um trabalho, é tentar de alguma forma dialogar quando possível. Quando não, é fazer da melhor forma possível, tentando deixar o personagem menos estereotipado.

CN: O que acredita que aconteceria se os negros boicotassem o audiovisual que não os representa e passassem a assistir apenas produções com pessoas negras em papéis importantes e não estereotipados?

MG: Essa coisa do boicote já está acontecendo até de forma inconsciente. Eu faço parte de vários grupos de mulheres negras, e muitas delas já não assistem TV Aberta e quando assistem são produções as quais se sintam representadas. Quando a sociedade, como um todo, perceber que a questão do racismo atinge a todos, o black money [dinheiro negro] acontecerá de forma explícita e consciente. Se eu não me vejo, eu não consumo, como já acontece nos Estados Unidos.

CN: No seu TEDx você cita o discurso de Shonda Rhimes sobre odiar a palavra diversidade e estar normalizando a TV para que se pareça mais com o mundo real. Como o público pode fazer parte desse processo de normalizar a televisão?

MG: O público tem o grande poder da escolha, de assistir coisas que se identifique e ditar a audiência ou a bilheteria. Acho que o Pantera Negra foi uma grande prova do quanto a gente tem poder se a gente vai de fato assistir a algo que nos represente. O público não quer mais estar à margem, esse é um fato.

Na internet, telespectadores questionam ausência de representatividade na TV

Correio Nagô: Quando e como as artes começaram a fazer parte da sua vida e se tornou sua escolha profissional?

Maria Gal: As artes começaram a fazer parte da minha vida desde a infância, quando comecei a fazer ballet lá para os 5 anos e aos 9 o curso de ballet também ofereceu o curso de teatro. Aí eu comecei a perceber que tava gostando mais do teatro do que ballet, então na minha adolescência eu já sabia que queria ser atriz. Fui fazer faculdade de Educação Artística e, quando me formei, fui começar a fazer teatro no Bando de Teatro Olodum. E no Bando essa escolha começou a fazer parte da minha vida no sentido profissional, quando escolhi trabalhar como atriz e vim para São Paulo.

 

Beatriz Almeida é repórter-estagiária do Portal Correio Nagô.

Com a supervisão da jornalista Donminique Azevedo

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